domingo, 26 de setembro de 2010

Pensamentos de uma segunda-feira incomum (parte 2)



Na mesma velocidade que chegara o alívio dela o pronto-socorro parecia estar diminuindo, tamanho o número de pessoas que buscavam por atendimento. Naquele momento pude perceber uma das cenas mais marcantes de minha vida: Frente ao verdadeiro caos que parecia se instaurar as pouco mais de meia-dúzia de enfermeiras mantinham uma calma e educação que nem o mais compenetrado monge budista conseguiria. Pouco espaço, poucos médicos, poucos enfermeiros, enfim a pouca importância dada a saúde pública rapidamente ia se revelando, nada que tirasse do sério os concentrados profissionais da saúde. “Pois não senhora”; “Você pode assentar aqui, por favor?”; “Você pode vir aqui para a medicação, por favor?”; “Só um minuto, por favor, que ela já vai te atender”. Eram as palavras de quem tinha que escutar reclamações, choro, pacientes que falavam demais, outros que mal tinham condição de falar, ou mesmo se mover: “Isso é um absurdo, eu pago o salário de vocês!” reclamava um acompanhante que, desde a madrugada, aguardava o atendimento de seu parente. “Nós pagamos a vida toda, e é isso que o estado nos dá?” reclamava um paciente. Em meio a essa batalha para trazer ordem à entropia vejo a enfermeira que nos ajudou indo embora, provavelmente esteve lá durante toda a noite o que tornava seu cansaço evidente. A única coisa que me coube dizê-la foi um singelo “muito obrigado” ao ver aquela simpática figura caminhando para seu merecido descanso fora do hospital, sequer recordo seu nome, mas certamente jamais esquecerei aquela silhueta, tão pequena para um coração tão grande.
A manhã passava e nossa jornada pelo hospital continuava a todo ritmo, bolsas, pedidos de exames, bolsa de soro e até tanque de oxigênio (ela teve que ficar no oxigênio para se recuperar) eu carregava. Alguns exames ainda tinham que ser feitos para que retornássemos ao médico (àquela hora já era outro que estava atendendo) para conseguir a liberação. O resultado do exame de sangue demoraria 2 horas, por isso fomos levados para a sala de espera, onde os pacientes aguardavam para ter o retorno com o médico, enquanto ainda estavam sob alguma medicação (no caso dela o oxigênio). Pensava eu que a situação já estava encaminhada, sendo apenas uma questão de tempo para tudo se resolver, mas mal sabia que o momento mais intenso daquela manhã estava por vir...
Toca o celular, é minha avó, que passava a semana lá em casa nos visitando e, até o momento não sabia ao certo o que tinha acontecido, apenas desconfiava de algo estranho. Não consegui despistá-la e logo passei para minha mãe que, àquela altura se preocupava com a saúde da outra, também vítima de hipertensão e que perdera o marido pelo mesmo problema. Caçula de 3 irmãos minha mãe estava com a mesma idade do meu avô quando este faleceu, motivo que apenas deixava mais apreensiva a mãe dela. A partir de então os telefonemas foram sendo feitos, logo diversos parentes foram contatados para dar apoio à senhora que agora aguardava ansiosa pela melhora da filha em casa. A certa altura, em meio a tantos telefonemas, minha mãe começa a chorar, a princípio não entendi muito bem o porquê, mas quando lhe perguntei o motivo sua fala me fez entender tudo: “É muito ruim ficar dando trabalho para os outros assim”.
 Lá estava ela, minha mãe, invertendo o papel que a natureza lhe havia dado, sendo cuidada pelo filho que, sem reação diante de seu choro, pegava-lhe a mão tentando de todo jeito acalmá-la. O ser mais doce que já havia conhecido agora estava lá chorando diante de sua impotência de ter se tornado “um peso” para o filho e para todos os outros que agora procuravam, ainda que à distancia, ajudá-la. Naquele momento meus mais de 1,80 metro eram insignificantes diante da sensação de ser aquele pequeno garoto a quem ela criara com toda atenção e carinho e que agora, claramente ansioso, tentava lhe tranqüilizar como que sem alternativas para lhe compensar tamanha dedicação.
Pouco tempo depois desse momento, passado as emoções mais fortes, uma cena única me fez refletir sobre um pouco de tudo que se ocorrera ali naquela manhã. A médica estava prescrevendo uma receita quando o telefone toca e logo ela ironizando fala a uma enfermeira: “O fulana quer falar com o XXX?”. Era uma daquelas campanhas políticas por telefone que não poderia ter surgido num local mais marcante como aquele, um hospital dos servidores do estado. Muito fácil para os políticos, em época de campanha, transformar a “festa da democracia” num verdadeiro teatro, em que atores, atrizes, cantores e profissionais de marketing fazem de tudo (por dinheiro, provavelmente até mais do que se gasta com a saúde dos servidores) para pedir voto.
Enquanto nos bombardeiam com suas frases de efeito, críticas a oposição- talvez a única coisa de interessante na eleição, quando não há exageros e distorções- e toneladas de propostas vazias, a realidade se mostra mais dura. Fiquei a me perguntar para onde vão os parentes destes políticos quando, assim como minha mãe (e as centenas de doentes) passam mal? Como é tranqüilo, por trás de maquiagens, discursos prontos e cenários armados, falar de investimento social, do melhor para o “povo”, do que o estado (ou o país) precisa, enquanto a população vara a madrugada em busca de um direito humano que, no mínimo, deveria ser universal em sua abrangência e qualidade.
Na propaganda eleitoral da TV se veem atores e cantores que, sem contribuir em nada para a sociedade, cantam sobre emoções, esperanças e sonhos, como se entoassem um hino. Incrível perceber como que tamanha hipocrisia rende melodias, tão exuberantes, mas que dizem de um interesses não tão exuberantes assim, mais preocupados com cifrões de uma meia dúzia de poderosos com seus sorrisos falsos a apodrecer no poder. Diante deste turbilhão de pensamentos em minha cabeça algumas perguntas surgiam insistentemente: Quem iria pagar por tudo aquilo? Pela paciência sobre-humana do senhor que, mal conseguindo andar, veio do interior para ser atendido? Pelas péssimas condições de trabalho das enfermeiras que, não fosse o amor pela vida humana não teriam condições de atender as centenas de pacientes todos os dias num local que mal cabem dezenas? Quem iria pagar caso minha mãe não tivesse um acompanhante a seu dispor para correr atrás de atendimento urgente, dos remédios, da burocracia e mesmo da água que ela tanto precisou? Para quem vai a “conta” no fim de tudo isso? Será que aqueles músicos/atores estão dispostos a pagar?
Tamanhas indagações apenas refletiam minhas sensações de raiva, ansiedade, medo e até um pouco de alívio (afinal minha mãe estava melhorando). O tempo foi passando e meus ânimos foram (quase) se acalmando. O resultado do exame de sangue havia saído, junto com outros exames que minha mãe havia feito. Esperamos pelo atendimento da médica -já era meio-dia e só havia uma médica para liberar os pacientes que aguardavam para sair do hospital- para que pudéssemos sair logo daquele angustiante lugar. Felizmente os resultados não apontaram nada de muito grave, era uma questão de mudar a medicação para a hipertensão, logo fomos saindo do prédio e eu já estava no meu terceiro copo descartável de água. No momento de jogá-lo fora me veio a cabeça todo o problema ambiental que tanto se fala hoje em dia, confesso até ter sentido um pouco de culpa por não ter guardado o primeiro copo que peguei pela manhã ao invés de usar outros dois. Mas a culpa logo passou, pois definitivamente não tive tempo para pensar aquilo durante toda a manhã e um pensamento mais intenso veio em seguida: Se o planeta vai ou não ser salvo no futuro eu ainda não sei, mas definitivamente a humanidade já traçou seu rumo para a decadência. Angústia é essa a palavra...

Um comentário:

  1. aoooo mathias!
    qq isso em vey, detonando!
    fico mto bom, o texto me prendeu completamente mesmo sabendo o final hahahaha
    abração cara! sucesso!

    Rô (seu primo)

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