Angustia, era essa a palavra. Estava guardando o troco do taxi na carteira, ela já havia saído do carro e caminhava lentamente em direção ao pronto socorro, joguei a carteira na mochila e logo fui saindo. Dei-lhe o braço e, a passos curtos, fomos caminhando juntos, subindo a pequena rampa que dava acesso ao hospital. Sua respiração ofegante e sofrida, a dor que transparecia em sua face, o olhar de alguém cujo medo e a ansiedade haviam tomado o corpo, sinais de uma sina que, simplesmente por estar ao lado dela, eu partilhava um pouco de seu peso: Um arrepio que parecia gritar dentro de mim, mas que não tinha tempo para transparecer. Chegamos ao pronto socorro, àquela hora vazio, com apenas uma pessoa a espera no balcão, já providenciei todos os documentos para o atendimento. Mas como todas as ilusões, essa não poderia ter sido menos fugaz. Tão logo ela estava sentada na fila de espera, o atendente do balcão e o segurança do corredor onde ficavam os consultórios nada puderam me oferecer além da boa vontade e educação de providenciar a papelada para o atendimento. Para eles de nada adiantava a pressa, pois a realidade dos hospitais públicos brasileiros lhes havia ensinado uma importante lição: a vida, mesmo em seus momentos mais angustiantes, sempre pode esperar mais um pouco. O único médico disponível estava (a um bom tempo) atendendo um senhor de idade, enquanto os enfermeiros trocavam de turno (eram 6:30 da manhã e o próximo turno começava só as 7). A essa hora já não conseguia esconder a ansiedade: a todos que apareciam pedia uma ajuda, uma explicação que desse ao menos uma esperança de que ela fosse prontamente atendida. Infelizmente fui me dando conta de que não se tratava de má vontade ou falta de eficiência por parte de ninguém, era a realidade da saúde pública que aparecia na frente do meu nariz, com seu imperativo sórdido “senta e aguarda”.
A cada suspiro dela o tempo parecia correr mais devagar, como se a vida desse sua última dose de piedade, prolongando a duração de uma pessoa que, àquela altura, parecia traçar seu rumo derradeiro. Enquanto isso tentava eu fazer o que minha habilidade médica de estudante de jornalismo permitia, procurando acalmá-la e buscando um copo descartável para dar-lhe um pouco de água. Palavras, quase que hipócritas, saltavam da minha boca, falando de tranqüilidade enquanto meu coração (também) parecia escapar a garganta. Eis que a porta do consultório abre e, junto à vontade de levá-la ao atendimento o mais rápido possível vem um susto...
A maca saía da sala e, junto dela, um corpo a primeira vista moribundo. Um senhor de idade, com os olhos mal abertos, a boca e o corpo imóveis transparecendo a dor de alguém que mais se parecia um objeto à espera de sua destinação final. A pressa que me impulsionava não foi suficiente para que a dramática cena passasse despercebida. Durante toda a manhã a imagem me perseguiria e, por mais que tentasse digerí-la uma ânsia me incomodava. Recusava-me a aceitar a desumana condição daquela figura que, como descobri mais tarde, vinha do interior e estava desde as 3 da manhã a espera de atendimento.
Passada (ou não) a cena, conseguimos finalmente a atenção do médico. No consultório ele fazia perguntas sobre a dor no peito, a falta de ar, a duração dos sintomas (que começaram na madrugada) e os medicamentos controlados que comprovadamente já não surtiam efeito nenhum. “Não importa a intensidade da dor, só o fato dela existir é perigoso” explicava o doutor. Diagnóstico feito e prescrição em mãos, a situação finalmente parecia encaminhada, novamente pura ilusão. O turno da enfermagem não havia começado e na área de medicação, que ficava na frente do consultório, viam-se duas enfermeiras conversando, ainda sem o uniforme. Sua dor era tanta que, esperar o atendimento chegar sequer foi cogitado e logo entramos na sala de medicação para que ela pudesse assentar em uma das poucas cadeiras ali presentes. Tamanha “ilegalidade” (não podíamos entrar ali sem dar a prescrição à enfermeira, e não era permitido acompanhante na sala) não surtiu efeito e a equipe de enfermeiras que ainda não havia começado seu turno, conversava indiferente, como se a cena fosse corriqueira. Novamente a lição que o atendente e o guarda já indicavam se fazia válida.
Àquela hora os parentes do idoso, que aguardava do lado de fora da sala (pois a maca iria atrapalhar a entrada e saída das pessoas à pequena sala de enfermaria), reclamavam que o motorista do ônibus que os trouxera até lá estava querendo partir para o interior. “Ele não é louco de fazer isso, ele tem que esperar a gente para voltar” exclamava um dos parentes. Além da família surge uma mãe com seu filho deficiente mental aumentando ainda mais a ansiedade por atendimento na porta da sala, nada que interrompesse o diálogo das enfermeiras (ainda sem uniforme) à espera do horário. Eis que surge uma enfermeira que, mesmo seu turno tendo chegado ao fim, logo pegou a prescrição e foi me orientando sobre os comprimidos que eu teria de dar a ela. Eu com todos meus conhecimentos jornalísticos tive que assumir a tarefa, diante do contingente de enfermeiras a disposição. Enquanto ela perguntava com medo sobre os riscos de se misturar os medicamentos, a forma de ingerir cada um, a enfermeira educadamente ia respondendo e dando as orientações. Àquela altura já fui buscar o segundo copo descartável para dar a ela os medicamentos junto com água. Ao terminar de ingerir os cerca de 7 comprimidos (não me recordo agora o número) o milagre do conhecimento humano -quando utilizado em prol da vida- se fez e diante dos meus olhos o alivio de seu corpo, quase curado, transparecia. Mas nossa jornada estava apenas começando...
Primeira vez que leio texto seu.. gostei muito, parabéns. Você consegue cativar o leitor de maneira incrível, quero o fim da história. (:
ResponderExcluirPaulinha
Muito bom! Como sempre =)
ResponderExcluirQue bom que ela está melhor! Beijos
É de Arrepiar!
ResponderExcluirCada momento q vc descreve agente sente junto o seu desespero, ansiedade e alívio... Se não tivesse sido um fato tão real na sua vida diria q vc já é um grande escritor, com uma sensibilidade tremenda pra criar fatos q por vezes são tão tristes. O seu talento cm as palavras afloraram com isso q vc passou... As grandes Históas e as melhores letras de música muitas vezes saem de um profundo sofrimento,o artista tem um encontro tão profundo cm a vida q isso se torna lindo, mesmo q tenha causado dor, qdo posto em palavras... Q bom q vc tem suas palavras e são nelas muitas vezes q vc encontra conforto.*
bjooo bem grande e uma enorme admiração!